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A Globalização do Crime – O Desafio do Século XXI

Por João Carlos Berka
Consultor em Segurança
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Com o término da  Guerra Fria no inicio dos anos 90, o arrefecimento momentâneo dos desafios geopolíticos e econômicosobservamos o redesenhar do mapa de riscos de nosso mundo. Todas as regiões do mundo assistiram o surgimento de novas redes de crime organizado, que estabeleceram a sua plataforma de atividades em sua área de origem, mas rapidamente se conectando uns com os outros e com as organizações criminosas mais velhas, em áreas de atuação em que os riscos eram menores e os lucros maiores, tais como o tráfico e exploração sexual. Todos esses grupos beneficiaram-se do aumento dos fluxos globais de produtos e pessoas. Nos quatro quadrantes da Terra, prenunciou-se então, um inimigo em comum a ser combatido: o  CRIME.

Cada país, cada região apresenta peculiaridades no que toca a modalidade e incidência de crime .

Os Crimes Autóctones, isto é, típicos de determinada realidade geográfica, estão umbilicalmente ligados às razões étnicas, psicossociais, culturais e econômicas. Assim na Sicília, na Itália,   os crimes d’honore, consagraram as luparas como instrumentos para lavar com sangue afrontas pessoais e familiares. O Jogo do bicho, tipicamente brasileiro, apesar de parente das tômbolas espanholas e das quinielas uruguaias e argentinas,  encontra em nosso território  uma expressão sociológica distinta do jogo popular de nossos vizinhos. O  nosso bicheiro, via de regra , assume o mesmo papel assistencialista aos seus protegidos, que a Cosa Nostra.

Os  Cartéis de Cáli e Medelín, na Colômbia, além de empresariar o cultivo, o processamento e distribuição da cocaína a nível mundial, também exercem significativo papel  dentro da estrutura de poder político e Econômico daquele país.  Pequenos países do Caribe, vocacionaram-se como paraísos fiscais. E assim por diante.

Porém, mais significativos que  estes crimes, os crimes comuns: crimes contra o patrimônio, homicídios, seqüestros, tráfico de drogas, lenocínio (cafetinagem), etc., são os que aumentam vertiginosamente as estatísticas de todos países. Não cabe aqui digressões de cunho sociológico, mas a grosso modo podemos apontar o alto nível de desemprego, a má distribuição de renda, a falta de planejamento estratégico dos governos, e o apelo do lucro fácil, como as causas mais correntes do aumento da criminalidade .               

Mas verdadeiramente preocupante é a desenvoltura do CRIME ORGANIZADO  em todo o mundo. Inspirados nas organizações mafiosas ítalo-americanas, grupos criminosos de diversas regiões do mundo tem se esmerado em empresariar o crime.  União Corsa, Cosa Nostra, Yakusa, Máfias Russas, Comando Vermelho, Cartéis de Cáli e Medelín, etc., operam nas mais diversas regiões do  mundo os negócios ilegais do tráfico de drogas, a indústria do seqüestro, a prostituição, a lavagem de dinheiro, o comércio de armas, o jogo ilegal, o roubo de cargas, os assaltos a bancos, a venda de proteção  a empresários, etc .

Com o dinheiro fácil do crime, após a necessária lavagem, importantes capitais voltam a circulação sob a capa de insuspeitos investimentos geridos por impolutos testas-de-ferro. Parte deste capital, irá financiar campanhas de políticos apadrinhados pelo crime organizado, lubrificar  os órgãos de Segurança e Policiais. Países existem que, fica impossível discernir onde termina a ação do Estado e onde começa a iniciativa do crime organizado. Alguns países, principalmente , na América Latina, já tiveram em seu governo, personalidades envolvidas e partícipes do crime organizado.  

Com conotação distinta, mas não menos importantes, as organizações terroristas,  apesar da componente ideológica, política, ou mesmo religiosa, também contribuem de maneira decisiva para a insegurança mundial. Atentados em centros comerciais, metrôs, aeroportos, estações ferroviárias, escolas, seqüestros  de aeronaves, assaltos a bancos, sequestros e atentados a homens públicos, são uma constante no cenário da sociedade dita civilizada . Movimentos de Libertação, unidades suicidas, centros de treinamento para operações guerrilheiras, freqüentam com assiduidade as páginas de periódicos do mundo inteiro.

Além do crime comum e violento, outra modalidade vem preocupando os especialistas de Segurança, pelo aumento de incidência e pela sofisticação dos meios: white colar crime –  crime do colarinho branco. 

Os crimes como fraude, estelionato, falsificação, desfalques, tem com o avanço tecnológico, propiciado aos criminosos maiores resultados do que os auferidos com os crimes violentos. Ferramentas como a informática e a eletrônica, são usadas à saciedade por modernos meliantes que usufruem normalmente de um avanço tecnológico acelerado e pouco preocupado com a componente Segurança.

Uma modalidade que foi incrementada do fim da Guerra Fria, foi a Espionagem. Agora com matizes distintos, e desprovidos da ideologias e nacionalismos. Espionagem industrial, comercial e financeira, são novas realidades desta antiga profissão glamourizada nos romances de capa e espada . A competição brutal entre as empresas, a globalização da Economia, os avanços tecnológicos, os desafios da produtividade, incrementaram em muito esta atividade marginal, que tem o provimentos de recursos humanos e tecnológicos oriundo  nas organizações e agências de Inteligência de diversos países. Com o desmantelamento de certas estruturas, com o remodelamento de outras, com a diminuição dos efetivos, sobrou mão de obra altamente qualificada, agora disponível inclusive para práticas delitivas.

Recentemente, o crime organizado, dando mostras de adequação aos novos tempos, de contemporaneidade, ingressou  em dois novos campos: o crime cibernético e a manipulação e roubo de informações de bancos genéticos. Ambas as áreas, consideradas estratégicas para os países, tem causado preocupação nos governos, pelo que significam  em termos de operacionalidade da sociedade moderna (telecomunicações, transporte, Energia, etc) no caso da cibernética, e pelo que significa em termos de futuro da humanidade no caso dos bancos genéticos.

Outro fenômeno que tem sido observado, neste mundo de rápidas mutações, é que parte significativa da Economia Informal dos países, tem sido, direta e indiretamente manipulada pelo crime organizado. Aqueles setores da Economia, ignorados pelo Estado, ou tangidos para a clandestinidade pelo excesso de atividade intervencionista do mesmo, tem sido abraçados por aqueles que necessitam de justificativas para seus ativos .

Não é de hoje que a indústria do entretenimento é alvo de investidas do crime organizado. O mundo do boxe, do turfe, do show-business, tiveram  ídolos construídos pela ação do dinheiro de origem escusa . Filmes e músicas foram alavancados pelo marketing mafioso. Obscuras starlets  e cantores medíocres conheceram a ribalta pelas mãos do Crime e, hoje ,seguramente a indústria da pornografia constitui-se num dos mais promissores negócios do crime organizado. Canais de Televisão, produtoras de cinema, promotoras de Shows, integram os negócios de inúmeras organizações criminosas. Vídeos, literatura, sites na Internet, explorando a pedofilia  constituem um nicho dos meliantes.

A REALIDADE BRASILEIRA 

Má distribuição de renda, êxodo rural com a conseqüente favelização das cidades, falta de educação e saúde, desemprego, falta de perspectivas de vida para grande parte da população que vive abaixo da linha da pobreza, sistema penitenciário falido, polícia inoperante e muitas vezes corrupta, justiça morosa e ineficiente, falta de combate efetivo ao tráfico de drogas, tudo isso são as componentes básicas para o aumento assustador do crime no  Brasil.

Hoje na cidade de São Paulo, a cada três dias uma agência bancária é alvo de criminosos. Somente no Estado de Santa Catarina, um dois mais seguros, com melhor distribuição de renda , com melhores índices de qualidade de vida, no primeiro semestre de 2014, foram cometidos aproximadamente 100 ataques a bancos entre assaltos e arrombamentos. Nas grandes cidades dos país, o sequestro relâmpago tornou-se um crime comum com diversos casos diários. Brasília, capital federal, que já foi considerada uma das mais seguras cidades brasileiras, apresenta uma média de 12  a 20 homicídios por semana.

Desaparecem em todo território nacional cargas, caminhões e motoristas que  as estatísticas, apesar de contraditórias, indicam números elevados. O Brasil, até pouco tempo consumidor e corredor de exportação da cocaína colombiana e boliviana, já apresenta-se como processador da pasta básica e grande produtor de maconha e crack.  Com grande número de menores nas ruas é, seguramente, um dos maiores consumidores de cola de sapateiro e crack. Heroína, ecstasy e LSD, drogas sintéticas de maior valor, são consumidas em quantidades alarmantes.

A rede bancária, seguramente a mais automatizada da América Latina, paga um alto preço por implantar tecnologias de automação sem a preocupação com a segurança dos sistemas.   

Hackers  já causam estrago nos computadores de bancos e instituições públicas e privadas. O  dinheiro de plástico, criado para dar maior operacionalidade e segurança, é o novo alvo de fraude e manipulação  criminosa.

As quadrilhas do Comando Vermelho e outras tem sido abastecidas com armamento de última geração, por contrabandistas que operam a partir do Paraguai e dos portos de Santos, em São Paulo, e de Paranaguá no estado do Paraná. Equipamentos de rastreamento de telefones celulares, escutas telefônicas e microfones direcionais já são utilizados pela criminalidade.

O trafico de órgãos, o desaparecimento de crianças, mulheres e idosos atinge proporções assustadoras, e seguramente em grande parte podem ser debitados a conta de criminosos. A Prostituição infantil, alavancada pelo turismo sexual internacional tem se constituído  outra mazela brasileira.

Os crimes financeiros tem sido uma constante no noticiário da imprensa braseira. A constatação do envolvimento de bicheiros com o tráfico de drogas e a pistolagem, desenha os contornos ainda incipientes do crime organizado brasileiro. No Bairro da Liberdade , na Cidade de São Paulo, é notória a atuação da Yakusa, e da máfia coreana, explorando trabalho escravo de imigrantes ilegais na indústria da tecelagem.

Na fronteira com o Paraguai, na cidade de Foz do Iguaçu, no estado do Paraná, membros do hezbolah e hamas, transitam livremente, ostentando em seus carros adesivos de movimentos pró palestinos . Há anos um dos capos da máfia americana, Tomaso Buschetta, foi capturado, operando no Brasil . Os Cartéis de Cáli e Medelín, possuem prepostos e negócios neste país.

Enfim, o Brasil está dentro dos parâmetros da modernidade. Faz parte da Aldeia Global.

ALDEIA GLOBAL E CRIME

O CRIME NÃO RESPEITA FRONTEIRAS.  A utopia da Aldeia Global que até bem pouco tempo parecia distante, concretizou-se. As comunicações via satélite, os cabos submarinos de fibra ótica ligando continentes, a junção da comunicação com a informática, a globalização da Economia, enfim, a troca acelerada de informações e experiências entre povos de mais remotas regiões, fez o nosso Velho Mundo tornar-se pequeno.

Apesar das fronteiras legais e naturais, apesar da existência de Blocos Econômicos, apesar da existência da babel  de centenas de idiomas e milhares de dialetos, apesar da diferença entre as etnias, o Crime, tal qual a maldade humana, não conhece fronteiras e não possui limites geográficos. A distinção étnica  ou lingüistica  não constituem empecilhos para a disseminação do  moderno câncer que ataca a sociedade humana : o crime organizado .

As sociedades constituídas vêem-se impotentes para o combate eficaz desta nova ameaça. Com limitações do conceito do princípio da territorialidade do direito, com a preocupação do respeito à soberania dos Estados constituídos, o combate torna-se inócuo e estéril. Enquanto a marginalidade cruza tranqüilamente oceanos, fronteiras, comete seus delitos num país e homizia-se em outro, enquanto vultuosas somas são subtraídas na Europa, e alvejadas nas lavanderias do Caribe, reina a impunidade, cresce a ameaça . O dinheiro conseguido com o tráfico de drogas nos Estados Unidos, transforma-se na indústria de plástico no Brasil. . Os rublos conseguidos pela Máfia Russa, com a exploração da indústria do caviar, transformam-se em escudos que irão comprar mansões mediterrâneas em Portugual, Espanha  ou na ilha de Chipre .A máfia ítalo-americana, investe em restaurantes em Moscou. A Máfia  Russa, na industria peleteira argentina. Os Colombianos do Cartel, em restaurantes e hotéis de luxo do Caribe, etc..

A Tecnologia trouxe-nos o Crime Virtual.   Aquele cujos autores podem estar do outro lado do mundo e ,no entanto, fazerem-se sentir bem próximos  e  reais  quanto  aos  malefícios  que causam.

CRIME   X   PAZ MUNDIAL

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Em Roma,  na época dos Césares, no antigo Senado Romano, ecoavam por suas paredes a voz tonitruante de um Senador que alertava: Delenda Cartago! Destruam Carthago! Na época, Carthago constituia-se somente um importante entreposto comercial na costa Africana. No entanto, anos após, e sem nunca terem dado ouvidos às admoestações do Senador; Anibal, O Cartaginês, cruzou os Alpes com seus elefantes e derrotou a orgulhosa Roma.

O  mundo deve entender que pregar o combate internacional ao crime organizado, não significa estimular a Síndrome do Terror. No entanto, devemos ter em mente que os apetites de lucro fácil destas organizações criminosas não tem limites. Sua ousadia, idem. Tal qual câncer insidioso, penetra em todos os tecidos sociais, ignorando classes, estamentos, instituições, fronteiras, estendendo seus tentáculos tal qual um polvo apocalíptico . Nada e ninguém pode considerar-se imune às suas investidas. Generais já participam do mercado negro de armas. Políticos integram juntamente com dirigentes de órgãos de Segurança a caixinha dos criminosos. Governos sofrem assédio de seus prepostos, buscando imunidade, trânsito livre, impedimento às deportações e extradições. Em vários países os cartéis da droga aliaram-se a organizações guerrilheiras, buscando desestabilizar o poder constituído.

Com grande parte da infraestrutura critica de Segurança dos países livres permanecendo vulneráveis, como instalações militares, centros de pesquisas, centros de energia nuclear, centros informáticos, etc., corremos o risco de vermos tornar-se realidade o que até o presente foi considerado ficção: terroristas ou simplesmente criminosos chantagearem governos com ameaças de artefatos atômicos, armas químicas, ou vírus cibernéticos. Já existem zonas de risco, que mundialmente são conhecidas, não recomendadas para o turismo, outras para o comércio internacional. Em algumas a justificativa  é a existência de organizações terroristas/guerrilheiras, noutras a atividade mafiosa cobrando proteção a empresários.

Se os governos não tomarem resolutas medidas para conter, combater e exterminar estas atividades criminosas em seus territórios, correrão risco em sua soberania, pois nenhum vizinho, quer ter ao seu lado terra de ninguém. O mesmo Conselho de Segurança da ONU, que hoje reúne-se para decidir por intervenção internacional em determinado país para preservação da democracia, para evitar genocídios, para preservar as fontes de energia, irá questionar a intervenção de países que não conseguem cuidar da própria casa. No entanto, devido a este problema ter conotação global, a solução impõe-se global. Somente através do esforço conjunto do concerto de nações, é que poderemos ter a solução deste desafio à humanidade.

Seguramente, o que irá resultar positivamente é a firme disposição dos países em cooperação mútua, consubstanciada em iniciativas concretas de repasse de tecnologia e informações, treinamento e operacionalidade conjunta. Adequação das leis internacionais e  de tratados de extradição, criação de organismos internacionais de repressão e combate ao crime organizado e ,finalmente, tribunais internacionais, são medidas que ,mais cedo ou mais tarde ,terão que  serem implantadas.

Há muito que o Mundo em todos os continentes, aspira à PAZ.  Para alcançá-la a humanidade precisa vencer alguns desafios. E o nosso próximo desafio será o Combate Mundial ao Crime Organizado.

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João Carlos Berka 20151129_190937João Carlos Berka, é Consultor em Segurança, especializado em análise de informações e de riscos, planejamento e auditoria de segurança, Business Intelligence, Inteligência Competitiva e HUMINT – Inteligência baseada no elemento humano.

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1 Comentário

  1. Tania disse:

    Excelente texto!

    Curtir

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