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Arquivo mensal: julho 2017

Nosso alguidar

João Carlos Berka

 

 

Em minha infância, escutei, incontáveis vezes, uma pequena história de caráter educativo. Com ela meus pais buscavam transmitir, a meus irmãos e a mim, a preocupação e o amor aos avós e aos idosos em geral.

Vale repetir : “ Ao sentar-se à mesa, viu um menino, que ao invés de ser dado um prato ao avô, já senil e decrépito, era-lhe reservado um alguidar ( uma espécie de gamelinha de barro) no chão, no canto da sala. Ao questionar, junto a seus pais, o porquê daquele tratamento, que a seus puros olhos infantis parecia desumano, foi-lhe respondido que assim faziam para evitar que o avozinho sujasse a mesa, derramando alimentos com suas trêmulas mãos. Dias mais tarde, viram, perplexos, seus pais, o menino guardar o alguidar debaixo de sua cama. Perguntada a razão de  seu procedimento, respondeu estar guardando o objeto, para no futuro, quando eles, seus pais estivessem com a idade do avô, pudessem fazer uso do mesmo, no chão, no canto de uma sala”.

 

Nossa geração, ao que parece, não captou o espírito da parábola popular. O descaso para com nossos maiores beira as raias da insensibilidade total. Nossos idosos sofrem um tratamento familiar, coletivo e social, que obriga ao questionamento de nossa alegada racionalidade. Se, no âmbito familiar, a situação fala do descaso e desmoronar de valores humanos, a nível social o descalabro é gritante.

Possuímos uma Previdência que não prevê. Que não justifica a enorme máquina administrativa, que ora é apresentada aos contribuintes como portadora de enorme déficit, ora como instituição saneada. A realidade é que todo o sistema brasileiro de aposentadorias e pensões, bem como benefícios, seguro-saúde, assistência médica  e curativa, tudo, enfim, constitui-se numa grande vergonha nacional!

Escândalo após escândalo, vai-se compondo o mosaico do quadro insano a que relegamos a questão do idoso, do aposentado e daquele impedido de trabalhar por questões de saúde.

Com esquemas de pretensa socialização da medicina, conseguiu-se  aviltar o atendimento médico da Previdência. Com desmandos administrativos e incúria gerencial, inviabilizaram-se os convênios com entidades privadas e o credenciamento de profissionais da saúde.

 

Sofrendo com tudo isto, a população carente, que não pode arcar com os altos preços médicos e tão pouco usufruir dos serviços hospitalares privados.

Quanto aos pensionistas e aposentados, estes vivem uma situação de angustiante penúria, tendo suas pensões corroídas por um processo inflacionário, ora galopante, ora marchador, porém contínuo; veem seu padrão de vida baixar a ponto da quase mendicância, tendo que abdicar, no ocaso de suas vidas, após anos e anos de trabalho ( e tendo sempre mantido em dia as malditas contribuições aos institutos de previdência), de um estilo de vida ao qual estavam acostumados. A defasagem entre o montante recebido enquanto produtivos e o de na qualidade de aposentados é enorme.

 

Sem pejo nem subterfúgios, podemos afirmar, categoricamente, que a sociedade em geral e o Estado em especial, apressam a morte coletiva daqueles que já tanto produziram, já deram suas parcelas de contribuição ao desenvolvimento comunitário e do país, praticando um autofagismo da espécie, negando a Razão e os sentimentos como atributos humanos.

Sem seus trabalhos, sem rendimentos condizentes que lhes propiciem vida digna e prazeirosa, sem assistência médica adequada, enfim sem o respeito e consideração de seus semelhantes, resta-lhes o gosto travo do abandono, a vontade de ir embora…

 

Mas, não devemos olvidar de que a História é repetitiva, mudando somente seus personagens!

Amanhã, estaremos nós, sentados no chão de uma sala…  Então – o alguidar será nosso!

 

( texto publicado no Jornal “A Notícia” , de Joinville/SC, em 19/08/87)